quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mais um bocadinho...

"Do pouco que se entendera, numa altura em que o grupo estava fragilizado pela fome e pelo frio, os que se tinham mantido minimamente alerta diziam que tinham sido atacados por um exército de seres a que chamavam olec’s. Apesar da sua aparência de humanos, na realidade não o eram. Defendiam-se com armas não conhecidas do grupo de colonizadores, com tácticas inovadoras e com dons que os humanos não possuíam.
Os testemunhos diziam também que os olec’s tinham vindo do outro lado da Ilha, o lado não visível, e nunca até ali, haviam revelado a sua existência aos colonizadores.
Para os especialistas, esta lenda fora a forma como os colonizadores se defenderam da vergonha de não terem vingado naquela terra.
Mas para o povo aquela lenda era uma história verdadeira, até porque o isolamento da Ilha e o aspecto pouco convidativo haviam condicionado há muito o imaginário das pessoas."


"A pesca era igualmente impossível. O mar tornava-se implacavelmente bravo e frio e de todos os que se haviam aventurado a enfrentá-lo, nenhum voltara para contar a história.
Daquela operação dependia a sua vida e agora que podia dizer, enfim, que tinha uma vida, não a perderia facilmente, pelo menos, não sem antes de a gozar um pouco.
Estava a acabar de preparar o último peixe quando um ruído forte lhe chamou a atenção.
Era como se algo pesado tivesse sido atirado para o chão com brutalidade.
Olhou em redor, procurando a razão do barulho, achando que, muito provavelmente, teria sido provocado por algum animal que se aproximara da casa, derrubando algo.
Mas não conseguiu descortinar nada."

quinta-feira, 25 de março de 2010

Mais um bocadinho de "A Ilha"...

Mais um bocadinho de "A Ilha"...

"Sem se aperceber, atravessara quase todo o bosque e estava à frente de um castelo.
As pedras pareciam observá-lo, como se fossem os guardas, inspeccionando-o antes de o deixarem entrar.
Espreitou, procurando certificar-se que não havia ninguém por perto. E, para seu espanto, deparou com a pequena figura de Freyja caída no chão, quase como se fizesse parte dele.
Morten correu na sua direcção, ajoelhando-se junto dela.
Suavemente, acariciou-lhe o rosto mas não obteve qualquer reacção.
Passou o seu braço por debaixo do pescoço dela, elevando-a e pousando a cabeça no seu colo. Mas nada.
Morten olhou em redor e gritou por socorro.
O anão espreitou de uma das portas mas não conseguia acreditar no que via. O forasteiro. O forasteiro tivera a coragem de chegar até ali. E estava com Freyja.
Chamou o seu amo, enquanto correu em resposta a Morten.
O jovem rei olhou pela janela do seu quarto, procurando perceber a aflição do seu servo. O seu coração apertou-se de repente quando viu Freyja caída e nem a presença de Morten o conseguiu distrair da ideia que algo acontecera à sua futura esposa."

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mais uns bocadinhos de "A Ilha"

"O jovem rei tinha uma enorme curiosidade em conhecer o estranho. Se ele e os do seu mundo não pretendiam invadir a Ilha, então o que o fizera mudar-se para ali? Porque estava ali sozinho? E, principalmente, porque é que Freyja parecia estimá-lo tanto?
- Continua preocupado com esse estranho, meu rei? – perguntou o anão. O rei suspirou profundamente. Não se podia dizer que estivesse preocupado.
- Estou mais intrigado que preocupado.
- Acha que vale a pena contar ao povo que esse homem está na Ilha?
- Por agora, não. Chega de problemas. E depois, se ele não fez nada até agora, talvez seja melhor deixar as coisas como estão. – o jovem rei desistiu de observar Morten. Afinal, ia acabar por ficar horas a vê-lo tratar das suas culturas, limpar em redor da casa, dormir uma sesta, regar as culturas, vigiar o peixe enquanto este secava e, enfim, entrar em casa e só regressar no dia seguinte, para a mesma a rotina."

"A Assembleia esperava por Freyja.
A rainha nunca se atrasava mas desta vez estava a demorar e todos sabiam porquê. Pela primeira vez, estava nervosa e não o escondia de ninguém. Tinham que entender que ela era igual a todos os seus súbditos e que, uma vez entregue no seu destino nas suas mãos, sentia-se insegura e assustada. Afinal, sentira-se forte o suficiente para submeter o seu amor à aprovação do seu povo, revira todas as consequências e prepara-se para enfrentar qualquer decisão."

quinta-feira, 4 de março de 2010

Novos excertos de "A Ilha"

Novos excertos de "A Ilha"

"- Pedimos desculpa, mas é um assunto demasiado... como dizer... – o rei estranhou a conversa, mas dada a cara de caso que as duas tinham, resolveu sentar-se e convidá-las a fazerem o mesmo.
- Então, o que é que se passa?
- Bom, as mulheres da aldeia reuniram-se. – o rei franziu o sobrolho. Conhecia bem as mulheres da sua aldeia e quando elas se reuniam, nunca era coisa boa.
Eram teimosas e determinadas e quando decidiam fazer algo, era precisa muita arte para as convencer do contrário. Permaneceu em silêncio, esperando que elas continuassem a conversa, mas as duas pareciam demasiado atrapalhadas para avançar com a conversa.
- Bom, afinal, vão falar ou não?
- É um assunto muito sério, sabe...
- Já percebi, mas o que é que pode ser tão sério que vos deixe assim tão encabuladas? Vocês sempre tiveram a língua tão solta..."


"O jovem rei abandonou o castelo discretamente, como se se estivesse a preparar para dar um longo passeio.
Caminhou pelo bosque, devagar, procurando desfrutar de tudo como se fosse a última vez que o fazia. O cheiro a erva fresca, o ruído do vento a brincar com as folhas das árvores, os pequenos pássaros a voarem tão baixo que quase lhe arrancavam os cabelos.
A meio do caminho parou.
Sentou-se no chão e fechou os olhos.
Queria ficar ali o resto da sua vida, no meio das coisas simples, rodeado por tudo aquilo que nunca o poderia magoar.
Lembrava-se de quando era pouco mais que uma criança e passeava pelo bosque com o seu pai. De como aprendera a respeitar as flores, as árvores, os pássaros. A respeitá-los como se fossem seus irmãos.
Lembrava-se de como achava que tudo era mágico no bosque, como se falassem com ele, como se lhe dessem conselhos, o chamassem para brincar.
Sempre que passeava naquele local, tinha aquela sensação, como se tudo ganhasse vida."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Mais um pouco de "A Ilha"

"Durante dias a fio, Morten procurou Freyja pela Ilha, mas sem qualquer sucesso. Ao mínimo ruído, corria para dentro da cabana, na esperança que fosse ela. Mas voltava sempre cabisbaixo, desiludido por ter encontrado a casa vazia, mais uma vez.
Pela primeira vez na vida, queria estar próximo de alguém. Não conseguia deixar de pensar no sorriso dela, nos olhos brIlhantes, naquelas asinhas que se agitavam com a maior das suavidades.
Quando ela sorria, Morten tinha a sensação que o fazia apenas para ele e, de repente, tudo o que fora feio na sua vida deixara de existir."


"Queria aquela mulher ao seu lado para o resto dos seus dias e apesar de ter pesado todos os prós e todos os contra, só conseguia ver vantagens.
Nunca se imaginara a partIlhar a sua vida com uma mulher. Aliás, nunca se imaginara a partIlhar a sua vida com ninguém, daí que se tivesse mudado para a Ilha. Quando pensara pela primeira vez em Freyja como uma companheira, a ideia de viver a seu lado fora quase destruída pela sua necessidade de solidão.
Afinal, fugira de tudo e de todos e estava só a começar a gostar de viver sozinho, em paz.
Na verdade, sempre vivera sozinho e bastava-lhe a ideia de alguém passar na mesma rua onde morava para se sentir sufocado.
A quietude e solidão que gozava desde que estava na Ilha eram tudo o que Morten sempre desejara. Mas, de repente, surgira aquela mulher a transformar tudo.
Mas, mais que tudo, queria ficar junto dela, o que, possivelmente, significaria também ter que conviver com o povo dela, viver no mundo dela.
A ideia de voltar a conviver com diversas pessoas, de recomeçar a sua vida noutro lugar, mesmo sendo um mundo tão especial como o de Freyja, tinha-o assustado. Mas depressa se recuperara."

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Mais uns excertos...

Mais uns excertos...

"Uma vez instalados, Morten aguardou que o outro homem lhe dissesse ao que vinha.
- Bom, devo dizer-lhe que hesitei muito antes de vir ter consigo. – Morten olhou-o nos olhos.
Apesar da sua enormidade, aquele homem inspirava-lhe confiança. – Passou muito tempo até que me decidisse se devia vir até aqui.
- Isso quer dizer que já tivera conhecimento da minha presença? – o jovem rei sorriu. Aquele homem poderia ter ficado irado ao perceber que fora observado, vigiado, mas não, parecia simplesmente surpreendido."

"- Mas... Falou-me dos seus. Quem são os seus?
Não são, com certeza, os amigos de Freyja.
- Não, de facto, não são. – não tinha hipótese. Tinha mesmo que lhe contar algumas coisas. Sentiu uma pequena raiva crescer dentro de si. Morten falava de Freyja do mesmo modo que ele próprio, como se a conhecesse tão bem como ele. – O meu povo vive na clareira depois do bosque, do lado mais aprazível da Ilha.
- Eles também sabem que eu vivo aqui?
- Não. Achei que era melhor que não soubessem, pelo menos enquanto eu não tivesse a certeza que não queria nada de nós."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010


Aqui ficam dois excertos do início de "A Ilha".

A descrição da personagem principal será postada em breve.


“Que se lixasse o barqueiro, o mar e tudo o mais. Lançou-se à água e fez sinal ao homem para lhe atirar o baú, o que ele fez, com tal violência que este praticamente se afundou. Morten teve que mergulhar para o agarrar, trazendo-o à superfície com alguma dificuldade.
O barqueiro remava já na direcção oposta à Ilha, o que deixou Morten aliviado pelo seu afastamento, mas um pouco inseguro. Afinal, e apesar de estúpida, era a única companhia que tinha e, muito provavelmente, o último ser humano que iria ver durante muito tempo.
Respirou fundo e começou a nadar, usando apenas um braço, enquanto segurava o baú com o outro.
Algum tempo, e muitas braçadas depois, Morten chegou, por fim, à praia, completamente exausto. Pousou o baú num local que lhe pareceu seguro, enterrando-o um pouco no misto de areia e terra que formava o chão.
Sacudiu o cabelo o mais vigorosamente que o cansaço lho permitia, enxotando para longe terra e pedaços de algas.”




“Havia séculos que a vida decorria calmamente, sem sobressaltos, graças aos esforços e ao sangue derramado pelos seus antepassados para garantir que ninguém tomaria conta da Ilha.
Essa calma, sempre apreciada pelo rei, ganhara ainda mais importância depois da sua odisseia. Ao contrário dos seus antepassados, que haviam nascido, crescido e morrido sem nunca terem saído da Ilha, este rei, no começo da sua juventude, decidira que era melhor para a sua formação que esta fosse enriquecida com novas experiências.
O seu pai, então rei, concordara, apesar de recear não voltar a ver o seu adorado filho. Acreditava no amor do jovem príncipe pela Ilha e pelo povo, e também que tudo isso seria fortalecido pela distância. Como realmente fora. Mas não conseguia deixar de temer que o mundo dos humanos o fizesse esquecer tudo aquilo.
Sabia que não teria muito mais tempo de vida, mas não deixara transparecer o seu medo de não tornar a ver o filho.
O jovem príncipe partiu sozinho, ficando fora da Ilha durante anos a fio.”