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domingo, 21 de novembro de 2010

"O Cravo e a Sepultura"

"Uns lotes ficaram maiores que outros, mas aquele que era agora seu era o mais pequeno de todos.


Lembrava-se de, em criança, passar de carro pela estrada fronteira e ouvir as mesmas histórias vezes sem conta. Tinha tanta raiva do seu antepassado que jurava que quando crescesse compraria todos os lotes e tornaria a transformá-la numa imensa propriedade.


Os pais riam-se, quer da utopia, quer daquilo que viam apenas como um sonho de criança. Nunca ninguém acreditou na sua vontade de reerguer das cinzas aquela propriedade. E fora essa descrença a sua maior força para, em adulto, avançar com o seu sonho.


Sempre fora de ideias fixas e sempre conseguira o que queria, levasse quanto tempo levasse. Desta vez não seria diferente.


Começara devagar, é certo, já que o dinheiro era pouco, mas começara. " 

"Era, de facto, um elemento estranho e, aparentemente, deslocado do cenário. Não tinha qualquer identificação, era impossível saber quem ali repousava.


Mas o mais estranho de tudo era o facto de ser solitária.

De facto, nas restantes propriedades não eram conhecidas quaisquer sepulturas.


Segundo o povo, ali estava sepultado um indigente e por isso fora ali posto, já que aquela propriedade estivera abandonada por longos anos. Outros ainda defendiam que o túmulo vinha dos tempos do senhor da terra e que fora ali posto porque guardava o corpo de um vampiro. Tratava-se de chão sagrado, diziam, logo, a melhor prisão para um ser demoníaco."
in "O Cravo e a Sepultura"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"O Cravo e a Sepultura"

"Ficara sempre acordado, incapaz de dominar aquela alegria de ter conseguido parte do seu objectivo e de se sentir, pela primeira vez na vida, em sua casa. Afastara-se apenas para ir buscar um cigarro.
O seu último olhar fora para a sepultura e, quando voltou, o primeiro voltou a ser para ela. E, para seu espanto, algo mudara.
Pareceu-lhe ver um objecto pousado sobre a campa, um objecto colorido, mas não conseguia perceber o que era.
Saiu de casa e aproximou-se da sepultura, tentando descortinar do que se tratava, mas a Lua escondera-se por detrás das nuvens, escurecendo tudo. Teve a sensação que alguém fugia, saltando o pequeno muro coberto de musgo que separava a sua propriedade da vizinha."
"O Cravo e a Sepultura"
"Quando a noite caía e Daniel saía para esperar por ela, encontrava apenas a sepultura, sozinha, vazia por fora, quase como se não valesse nada sem o cravo vermelho.
Sentia-se triste, ainda mais triste perante aquele cenário. Ali ficava, acordado, desesperado, com os olhos o mais escancarados possível, pestanejando o menos que fosse capaz, com medo de, ao perder alguns segundos de visão, perder também a hipótese de a ver.
Mas, noite após noite, ela continuava sem aparecer, deixando-o cada vez mais vazio. De manhã, voltava para casa e dormia, até a noite chegar novamente.
Mesmo o seu sono não conseguia ser sossegado, ausente daquela mulher, daquele espectro."
in "O Cravo e a Sepultura", "Pequenas Histórias para Entreter"

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

“O Cravo e a Sepultura”



“O Cravo e a Sepultura”, in "Pequenas Histórias para Entreter" (www.bubok.pt)


"Ajoelhou-se junto à sepultura e percebeu enfim o que era o objecto suspeito. Uma flor, um cravo vermelho, fresco, tão fresco que se o sacudisse soltaria de certo uma pequena chuva de pequenas gotas.
Voltou a olhar em redor. Afinal, não fora apenas impressão sua, alguém estivera realmente ali. O seu coração começou a bater mais depressa."

"Pegou no cravo e roçou-o suavemente pelo rosto, desfrutando do fresco das pétalas na sua pele. Cada vez que fazia tal ficava com a sensação que o cheiro ficava impregnado em si, como se fosse seu.
Acabou por adormecer, encostado à sepultura."

"Já quase sentia falta daqueles olhares desconfiados de quem por ele passava, das pessoas que paravam a observá-lo como um qualquer animal raro."